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Vida de Captadora: o calendário e o equilíbrio

Trabalho com projetos incentivados desde 2011 e posso afirmar que a busca por equilíbrio no que diz respeito ao calendário de trabalho de uma captadora de recursos é uma constante, ou melhor é “a” constante. Como montar o seu portfólio de projetos para captação e o business plan de sua empresa seguindo os calendários rígidos de inscrição de projetos e aportes de patrocinadores? Como se planejar quando há mudanças de governo? Leia o depoimento abaixo que busca compartilhar a experiência vivida e, assim, indicar possíveis caminhos.


Desde a faculdade de artes cênicas na UNICAMP me acostumei à lida da produção: criar, organizar a ideia, planejar, executar e seguir elaborando projetos. Se for contar apenas os acadêmicos foram 4 espetáculos em 2 anos. Isso me deu um certo ritmo e expertise e foi uma ótima escola para entender sobre prazos e metas. Assim, ao coordenar a produção do primeiro projeto patrocinado via lei Rouanet em 2011 a descoberta foi que havia mais elementos à acrescentar a vida de malabarista: além dos cronogramas com as equipes criativas do projeto para cumprir o prazo da estreia (elenco, cenografia, figurino, direção, etc.), agora havia também o cronograma burocrático da lei (os pagamentos via cheque, as emissões de notas fiscais, a prestação de contas e tantas outras regras extras que me foram apresentadas). Mas devo dizer que GOSTEI! Na verdade, me encantei com a organização trazida: era tudo muito lógico de seguir e muito transparente, tudo estava à luz do dia sobre o uso daquele dinheiro público. E o melhor: eu podia me informar sobre essas regras de antemão: elas estavam publicadas nas leis, nos decretos e nas instruções normativas. Estavam acessíveis com apenas 2 a 3 cliques e um download.


Depois da produção de projetos incentivados acrescentei mais algumas regras de calendário à vida profissional com o início da elaboração de projetos para PROAC ICMS e Lei Rouanet, e aí fui descobrindo estes outros regimes de tempo: o período de inscrição de proponente, a documentação necessária, a inscrição do projeto, o acompanhamento de sua aprovação, o prazo de captação, o de realização, e assim por diante. Acrescente a isso que fui estudar fora administração de artes e voltei em 2013, ano em que eu começo a empreender com a Sorella e que a vida política no Brasil começa a se transformar, ou seja, mais uma questão de tempo x espaço na lida profissional. Após fazer 2 grandes produções em 2013 e 2014 passo a me dedicar mais exclusivamente a este que é um dos objetivos da Sorella: a assessoria à artistas e organizações que desejam trabalhar com leis de incentivo, elaborando estratégias de curto, médio e longo prazo.


Pronto, esse foi o contexto e o tempo desses anos que também incluíram em 2016 a CPI da Lei Rouanet, entre 2016 e 2017 a existência de 3 ministros da cultura, em 2017 a chegada de 3 instruções normativas na Lei Rouanet e a regulamentação do Pro-Mac (lei de incentivo municipal de São Paulo). Já em 2018 foi a vez das eleições presidenciais e estaduais, e agora em 2019 a extinção do Ministério da Cultura e suas responsabilidades passadas para uma secretaria Especial de Cultura dentro da pasta do Ministério da Cidadania. UFA! Bastante coisa para lidar, não? E como fica isso no calendário de uma captadora? E como ficam as estratégias? Onde está algum tipo de equilíbrio que possibilite que este seja um trabalho menos sazonal e mais constante?


Pois bem, o que posso afirmar que aprendi nesses anos é que o contato com outros profissionais da área é fundamental! Fazer cursos, ir a eventos, tomar cafés e taças de vinho conversando sobre a profissão e os projetos, assistir shows e espetáculos e manter redes sociais ativas e interessantes. Assim como é muito importante se manter atualizado das mudanças governamentais, pois elas afetam (e afetaram) muito o calendário dos projetos, seja nas suas inscrições, captações e realizações. Os jornais com seções culturais e os diários oficiais se tornaram grandes companheiros, esses últimos as vezes com necessidade de leituras diárias.

Isso posto, o que digo como um “hastag fica a dica” é que é imprescindível para buscar o equilíbrio ter um calendário próprio de metas anuais e estabelecer dentro deste calendário os limites viáveis para você, levando em consideração o tamanho da sua empresa/negócio/organização. Digo que é preciso fazer um calendário de soma de prazos: o tempo que se leva na criação/elaboração do projeto, o prazo dado pelas leis de incentivo para a inscrição, o tempo médio de avaliação pelos órgãos competentes, o período da captação de acordo com o mecanismo de financiamento, e, finalmente o da realização, prestação de contas e avaliação dos resultados (não podemos esquecer destas últimas etapas que são tão cruciais!).


É necessário ter em mente que trabalhar com captação de recursos é algo que precisa de planejamento, perseverança, resiliência e da avaliação de estratégias.

Só ao fazer seu calendário próprio de metas somado ao de prazos externos é que é possível avaliar se seu planejamento deu certo, se sua estratégia para a busca de equilíbrio está no caminho certo.


E por último, mas muito importante, é claro que por muitas vezes também temos que levar em conta a nossa natureza e hábito de querer abraçar o mundo e fazer aquele favor para um projeto muito bacana que aparece nos 45 minutos do 2º tempo. Aquele projeto que está completamente fora do nosso calendário e plano de metas que “é tão interessante! Eu sempre quis trabalhar com isso”. Pois então, dizer ‘não’ faz parte também da busca pelo equilíbrio. A negativa não precisa ser total, por vezes é possível indicar outro profissional, ou mesmo deixar claro que o que você poderá fazer será limitado, porque assim, ao balizar as expectativas também se encontra o equilíbrio, pois algo que desorganiza muito o calendário são as cobranças indevidas.

Assim convido você que chegou até aqui a se desafiar e iniciar um calendário profissional de metas: papel e lápis na mão, ou melhor, celular e aplicativo de calendário aberto e vamos lá!


Desejo sucesso, sempre!


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